Um dos mais renomados jornalista do setor bate um franco papo e analisa o mercado, o jornalismo e as dificuldades. Imperdível!

EArena Games: Bueno, primeiramente, obrigado pela atenção dispensada.
A primeira pergunta diz respeito ao nome do blog: por que Freeko?
Renato Bueno: Isso veio do Souto, um camarada doente que fazia parte da equipe na Futuro Comunicação (de EGM Brasil e tudo mais). Ele usava "esse cara é frico" pra designar qualquer retardado fazendo besteira no YouTube. O nome ficou na cabeça, e aí meio que adaptei essa grafia da palavra que nem existe no dicionário.
Vejo como um sinônimo abstrato pra doente, retardado, sem noção - quase nunca no sentido psiquiátrico da coisa.
EArena Games: Abstrato é uma boa palavra. Seus textos no blog normalmente trazem um "q" de ironia e humor, mesmo sendo curtos. Por que optou por este estilo?
Renato Bueno: Não optei por nada, só fui fazendo o que achava legal - ao longo dos três anos os posts passaram por umas 90 "linhas editoriais" diferentes. Usar texto curto evita que eu repita muita besteira e faz com que eu não explique nada direito. E dá mais espaço para as imagens, como deve ser quase sempre. Se é pra ser sério, melhor não ser.
EArena Games: Interessante pensamento. A maioria das pessoas no meio pensa que quanto mais informação escrita, melhor. Acha que o correto seria seguir pelo caminho das informações visuais? Enxerga isto como uma evolução próxima?
Renato Bueno: Não acho que seja "o correto" e nem "a evolução". No caso do meu blog é preferência pessoal, mesmo. Mas não dá pra querer falar de games com trocentos mil caracteres e duas telinhas toscas, por exemplo. 90% do que fazem por aí em três mil caracteres poderia cair pela metade em tamanho e ainda assim seria mais bem escrito.
EArena Games: Bueno, você é um dos mais respeitados jornalista do setor de games no país. Conte-nos um pouco de como começou a sua convivência com os games.
Renato Bueno: Cara, não compartilho do saudosismo romântico que parece ser o caso de 90% dos conhecidos que trabalham com games por aqui.
Não cresci cercado de games, não tive todos os consoles, nunca joguei “Zelda”, “Final Fantasy”, “King of Fighters”. Eu tive fases.
Jogava
Perdia só algumas edições da Ação Games e da SuperGamePower, batia ponto na locadora em final de semana.
Mas eu mais lia do que jogava. Parei de jogar a partir do PSOne, só fui retomar essa vida em 2003, com um PC mais ou menos, jogando “Max Payne” e “Mafia”. A partir daí retomei o "hobby que virou profissão de certa forma".
EArena Games: E quando decidiu que seguiria a carreira de jornalista?
Renato Bueno: Foi em 1999, inscrição no vestibular. Muito por causa do Folhateen e da Ilustrada, vi que dava pra fazer jornalismo legal. Também sempre me dei melhor escrevendo e lendo do que falando, então foi praticamente uma escolha automática.
EArena Games: Se pudesse fazer uma breve descrição de sua jornada enquanto jornalista, como ela seria?
Renato Bueno: Saí da Unesp/Bauru no começo de 2005, vim para São Paulo fazer o trainee integrado da Folha de S. Paulo - entrei como diagramador. Ao mesmo tempo fazia frilas que o Théo Azevedo encomendava para a EGM PC, na editora Conrad.
Conheci o Théo em Bauru. Estudamos jornalismo em lugares diferentes, mas fizemos nossos trabalhos de conclusão de curso sobre games - ele foi de “Erinia”, eu fui de “Máfia”.
Terminei o trainee, fiquei na Folha como diagramador por cerca de um ano. De lá, fui editar EGM PC na Futuro Comunicação e colaborar com as outras da casa: EGM Brasil, Nintendo World, SuperDicas PlayStation e demais projetos. Depois de mais um ano e pouco, fui para o G1, da Globo. Durante dois anos fiz Games e Tecnologia, além de alguns meses inesquecíveis em Planeta Bizarro.
Agora em setembro vim para a PlayTV/GameTV, cuidar dos sites.
EArena Games: E nesta trajetória, qual foi a notícia que mais lhe marcou positivamente? E a que mais entristeceu?
Renato Bueno: A que mais marcou positivamente foi o lançamento do Xbox 360 no Brasil. Cobrimos isso de perto na EGM Brasil, e, apesar de não termos Live e de o preço ainda ser alto, foi um acontecimento histórico nesse mercado incerto.
O que marcou negativamente não foi um fato isolado, mas uma categoria de fatos que aconteceram e ainda se repetem. É quando você deixa de cobrir eventos importantes porque sua empresa não entende o que é videogame, ou quando perde boas oportunidades de entrevistas e coberturas especiais devido a fatores alheios à prática do jornalismo.
EArena Games: Acha que ainda existe preconceito com os games no país?
Renato Bueno: Não vejo como preconceito, nem como falta de informação. É a doença do brasileiro em se sentir na obrigação de fazer piada fácil. Falo aqui em "piada" como o "gracejo social", o "espertão do escritório", as trocentas imbecilidades que você ouve tanto na fila do mercado sábado à tarde quanto em uma busca por "chuva" no Twitter quando começa a... chover.
E então é por isso que, quando você fala que "escreve sobre games", a primeira coisa que 99% das pessoas falam é "que vida dura, hein. Jogando para trabalhar". É uma frase pronta na cabeça dela. Ela só espera o momento "certo" para disparar isso, olhar em volta e sentir o efeito de missão cumprida.
O melhor é que isso afeta tanto o espertão do escritório quanto o dono da empresa que imprime suas revistas sobre joguinhos e publica seus sites de telinhas.
EArena Games: Esta situação prejudica internamente o crescimento do mercado e deturpa a visão sobre o setor. No exterior, imagens torpes sobre o Brasil também prejudicam a chegada de certas companhias por aqui. Como vê a chegada da Sony neste cenário?
Renato Bueno: Vem tarde, mas é fundamental. O mercado de games aqui é muito pouco profissional, em diversos aspectos, e a presença deles pode melhorar muita coisa, além de incentivar a concorrência. Basta ser efetivo, e não só brincar de fachada. Chuto aí que uma alta parcela de eleitores erra a capital do país, mas sabe que "PlayStation" é um videogame.
EArena Games: Na sua opinião, o que falta para sermos a "potência" que todos enxergam em nós?
Renato Bueno: Um primeiro passo é adaptar marketing, imprensa, comércio, tudo isso, ao mercado brasileiro, e não querer seguir modelos estrangeiros. Sou a última pessoa que saberia como fazer isso.
Vejo também uma barreira cultural. Há o incentivo para você "ser esperto". Ser esperto é acelerar no sinal amarelo porque você "não vai ser idiota de ficar esperando". E ser esperto é comprar o DVD pirata mesmo que o original custasse R$ 5,00 a mais.
EArena Games: Bueno, estamos chegando ao final da entrevista. Gostaria de pedir que deixasse uma mensagem para que nos lê.
Renato Bueno: Não sou bom pra mensagens, muito menos conselhos. Mas se alguém se sentir contrariado é só chegar ali no Freeko e xingar sem medo. Valeu!
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